quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Meu pai tem razão. Viver não é força, é jeito.
E o jeito é caminhar com a mão no bolso até um simpático boteco de calçada pra aproveitar o fim de tarde e seguir noite adentro tomando uma boa cerveja gelada, rindo das pataquadas cotidianas e pedindo ao garçom uma caneta pra anotar num guardanapo uma ou outra idéia que deverá ser desenvolvida depois (e não será). Respirar devagar enquanto o céu se alaranja e, com certo ar teatral, lançar mão de uma dessas frases que o vento vem às vezes me lembrar. Segurar quando os óio enche d'água porque nesse momento o coração já tá aberto e tem sempre alguém pra lembrar de alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho. Migrar pra outro boteco atrás dAquele aipim frito. Reparar que ficou tarde e xingar porque amanhã tem um troço (relativamente) chato pra fazer (relativamente) cedo. Pagar a conta com o que se conseguiu num bico que se conseguiu de última hora na útima semana. Voltar pra casa cantando baixinho e rindo discretamente, que é uma maneira de agradecer a Deus pelos momentos de comunhão e pelas lições aprendidas. Por fim, pensar em quem não esteve e torcer pra que o álcool tenha sido suficiente pra fazer dormir logo.
domingo, 20 de novembro de 2011
Raciocínio raso.
Acordou já pensando na escassez de algumas coisas e no acúmulo de outras e em como é difícil enxergar a vida como um ciclo embora ela não se apresente de outra forma. Esboçou um "tsc"- era só um resmungo, mesmo assim se censurou: sabia que não tinha propriamente motivos pra reclamar, ou melhor, os tinha, mas os motivos não vinham do excesso e sim da falta, o que os tornava difíceis de serem mensurados. Correu os olhos pelo armário da cozinha e, percebendo o que faltava, tentou organizar na cabeça uma lista de compras (como se houvesse, se coubesse uma folha em branco na cabeça!), parou no pó de café, o segundo ou terceiro ítem de uma lista que, seguindo adiante, não teria fim. Falando em café, passou um não muito forte e adoçou demais, riu imaginando como seu pai reprovaria balançando devagar a cabeça e rindo pelo canto da boca. - Acho que é o Milan Kundera que diz que a gente se classifica pelos olhares que acredita ter, pela platéia que constrói: há quem precise do grande público, há quem precise se manter sendo o centro das atenções de um grupo de amigos que ri das piadas de sempre e... sabe quando a gente se comporta diferente sob o olhar de alguém? Parece que algumas pessoas têm a capacidade de se comportar diferente só por imaginar que estão sob o olhar de alguém especial. Pois calha que a nossa personagem acredita ser uma dessas pessoas. E é. - Pensou então no pai e no jeitão de reprovar a quantidade de açúcar no café e riu novamente tentando saber se seria muito ridículo lançar mão da máxima "De amarga já basta a vida!". E seria. A partir desse fio da meada, foi aos quilômetros todos que os separavam, o pai e ela, e pensando nisso, olhou pela janela e a expressão que o sol a obrigava a fazer era exatamente igual a que o sol o obrigava a fazer. Sorriu - estavam juntos de novo. Lembrou das... enfim, lembrou. Sem a concentração necessária pra rezar, resta cantar e lembrar que são formas bem legítimas de oração... lembrar é um pouco estabelecer ligações sagradas entre as coisas e entre a gente. Seu homem também diz isso, só que com outras palavras, seu homem é um homem de palavras, as usa muito bem, não é o único homem que lhe povoa o peito (ora, faz calor no Rio de Janeiro) mas é o que melhor usa as palavras e por conta da sua paixão por palavras é o homem que gosta de chamar de seu - secretamente porque parece que não é mais permitido tomar posse de alguém, esse alguém pode zangar-se e ir embora, ainda que seja só maneira de dizer, ainda que seja só maneira de fechar os olhos e de não se sentir só. Daí considerou o peso de ter alguém pra si e não poder comunicar a ninguém, o peso de guardar essa e outras sensações cálidas, então se convenceu de que há certas bagagens que devem ser carregadas até que se dissolvam apesar da dor nos calos e que dor nos calos não se divide mesmo e que há providências que não se toma e que há vontades que não morrem e que há desejos que não se cumprem e que não é a gente que resolve e que há muito a aprender e que tudo que se tem a aprender se relaciona com entender que existe algo maior que ignora nossas pretensas necessidades e que... é, é preciso entender que há fomes que não se mata e que quase tudo termina em reticências.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Setembro.
Pra agora e pra daqui por diante, três atividades, porque se me prometer mais não cumpro, me conheço. Andar de bicicleta, ler e regar as plantas. A vida está se movimentando em larga escala e alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho¹. Minha pretensão, no entanto, é enorme com essa meta de realizar o simples. Quero respirar em mim (que é o jeito que inventei pra falar disso), quero apagar as manchas que me borram, soprar pra longe essa névoa que me envolve enquanto os dias correm hostis, preocupados e meio embriagados. É como se eu quisesse ficar só com que é essência. É árdua a busca pelo que é delicado nessa humanidade que construiu sua história com sangue e que grita tão forte dentro de mim e da minha arrogância, ou seja, é árdua a busca pelo que há de delicado em mim. Mas vamos que vamos porque somos fortes como um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar². E quando eu digo 'somos' é porque posso contar com um time e tanto, gente que me olha nos olhos e que consegue sentir compaixão por mim, gente que me conhece e mesmo assim consegue me amar. Li uma vez num conto que ternura é dom, o conto não era lá essas coisas mas essa frase nunca mais saiu de mim, e, de fato, ternura é dom.
¹De Dona Ivone Lara em "Alguém me avisou".
²De Grace Passô em "Por Elise".
domingo, 28 de agosto de 2011
Microfone.
Eu sei que a poesia é um grito e, às vezes, um escarro, mas é que hoje eu quero falar baixo.
Porque todas essas coisas que nos causam câncer não podem ouvir.
Porque quem realmente importa já está perto.
E porque a liberdade é uma faca que corta de dentro pra fora e, pra contaminar, basta um abraço.
sábado, 27 de agosto de 2011
Caminhos.
Dia ou noite?
Teatro ou cinema?
Rede ou sofá?
Balada ou boteco?
Coca ou pepsi?
Pizza ou hamburguer?
Piscina ou praia?
Inverno ou verão?
Outono ou primavera?
Orquídea ou girassol?
Bolo ou pão?
Tinto ou branco?
Vermelho ou amarelo?
Azul ou verde?
Chinelo ou tênis?
Ônibus ou metrô?
Beatles ou Stones?
Castanhas ou avelãs?
Torta ou sorvete?
Brownie ou cookie?
Café ou chocolate?
Bala ou chiclete?
Filme em casa ou no cinema?
MAM ou CCBB?
São Paulo ou Rio?
NY ou Paris?
Ferro ou madeira?
Almodóvar ou Tarantino?
Boa música ou silêncio?
Carro ou moto?
Nirvana ou Pearl Jam?
Receber uma ligação ou uma mensagem?
Tigre ou leão?
Mafalda ou Kalvin?
Voz ou cheiro?
Liberdade ou segurança?
...
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Pincel
Se eu pudesse dizer, eu diria veneno.
Eu perguntaria se você acha justo me deixar sem notícias a respeito da minha própria alma.
Cegar desse jeito os meus sentidos e deixar vagarem meus olhos que não sabem sequer se preferem amar ou odiar.
Só maldade deixar um coração cego, paralítico, menor.
Enquanto isso, vou me alongando, estourando os músculos feito elástico, me mexendo e falando demais como só gente muito angustiada faz.
Então eu bebo, derramo, espalho, borro, sujo, escorro, tinjo.
Aquarela eu.
Cores selvagens, livres, fortes e fingindo alegria.
Sangue eu.
Cor selvagem, livre, forte e fingindo alegria.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Doenças modernas.
Nossa, como eu exagero! Como eu faço drama! Imaginem vocês que fico mal humorada toda vez que leio alguma notícia relacionada aos bueiros que estão explodindo como gêiseres por toda cidade, matando e machucando gente, enquanto pagamos impostos e taxas cada vez mais altos que deveriam ser destinados ao bem estar público. E que eu sinto um medo quase paralisante quando preciso passar por determinadas ruas só porque tive um revólver apontado pra mim dia desses. É cada bobagem que me afeta... eu deveria procurar ajuda profissional. Fico pra morrer quando as pessoas jogam lixo no chão com toda naturalidade do mundo e tratam o que é de todo mundo como se fosse de ninguém, bem como quando elas ouvem música no celular sem fone de ouvido no ônibus. Acreditam que eu chego a sentir palpitações quando percebo que as pessoas continuam consumindo sacolas plásticas como se não houvesse amanhã (e não haverá mesmo) e que as indústrias continuam produzindo a todo vapor sem se preocupar com os recursos naturais do planeta e com a saúde de quem o habita? Eu sou, de fato, muito cricri e rabugenta com essa besteira de meio ambiente. Agora, patológicas mesmo são as minhas neuroses femininas. Chego ao cúmulo de considerar uma condenação divina essa históia de menstruar... só sendo uma fraca como eu pra me incomodar com o fato de ter de andar com uma espécie de frauda por sete dias todo mês enquanto minhas pernas e ventre doem e incho feito um bonecão do posto. E depilar então... um detalhe que me faz gastar uma fortuna pra sentir uma dor infernal na virilha, só uma mulher mal resolvida como eu pra reclamar disso. Sem mencionar toda a preocupação de resolver a carreira e vida financeira antes do prazo de validade do útero acabar, se é que eu tenho o direito de botar um filho nesse mundo poluído que é de ninguém. Achar um pai seria um problema à parte (pr'uma criatura pessimista como eu) porque, realmente, não sei em que pé estão as relações amorosas do nosso tempo, o que posso afirmar é que os homens aparentemente vêm desenvolvendo um problema gravíssimo de memória que faz com que eles se esqueçam de te ligar, por exemplo. Claro que a esperança de receber um telefonema é parte da minha esquizofrenia, coisa da minha cabeça, que acredita que alguém vai ligar só porque esse alguém diz com todas as letras que vai ligar e que vai ligar porque me acha linda, importante e especial. Com o sumiço dos machos da minha espécie, me vejo pensando em alternativas pra conceber um bebê e confesso que não simpatizo com os métodos de laboratório, a idéia de ter filho com um copo de vidro não me agrada nem um pouco.
Enfim, a questão toda é que todas essas questões são uma coisinha de nada e a gente tem a obrigação de ser feliz e aquietar o espírito como nas novelas ou comeciais de absorventes. Eu é que sou muito feroz e não vejo (só) a delicadeza, a doçura e a leveza de viver, eu é que 'queria a natureza mais doce'¹ por considerar corpo e alma humanos tão violentos. Eu é que deveria sossegar e esquecer que eu faço parte disso tudo. Eu deveria me angustiar menos e fingir que não noto que as pessoas são tão cruéis e que viver causa câncer.
¹De Grace Passô em "Por Elise".
Enfim, a questão toda é que todas essas questões são uma coisinha de nada e a gente tem a obrigação de ser feliz e aquietar o espírito como nas novelas ou comeciais de absorventes. Eu é que sou muito feroz e não vejo (só) a delicadeza, a doçura e a leveza de viver, eu é que 'queria a natureza mais doce'¹ por considerar corpo e alma humanos tão violentos. Eu é que deveria sossegar e esquecer que eu faço parte disso tudo. Eu deveria me angustiar menos e fingir que não noto que as pessoas são tão cruéis e que viver causa câncer.
¹De Grace Passô em "Por Elise".
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
E, no começo, éramos uma costela.
Clarice Lispector
Virginia Woolf
Dorothy Parker
Elis Regina
Janis Joplin
Carmem Miranda
Edith Piaf
Chiquinha Gonzaga
Amy Winehouse
Frida Kahlo
Pra abrir os trabalhos, os caminhos, o coração e (por que não?) o útero, peço licença às madames listadas acima. Que elas me abençoem e me ajudem a transformar a neurose minha de cada dia em textos... divertidos, digamos. É que viver e ser mulher está me deixando louca e loucura é sempre uma boa motivação pra escrever. Então fica combinado assim: 'farejando o mundo que é comível'¹, vou vivendo, sendo mulher, ficando louca, escrevendo e vendo no que dá.
Entre ludicidade e acidez, vou me (des)equilibrando, tentando não chorar e passar por esses tempos difíceis às gargalhadas, que é mais elegante e não dá rugas.
Em outras palavras:
Vou deitar e rolar!
¹De Clarice Lispector em "Uma Esperança".
Virginia Woolf
Dorothy Parker
Elis Regina
Janis Joplin
Carmem Miranda
Edith Piaf
Chiquinha Gonzaga
Amy Winehouse
Frida Kahlo
Pra abrir os trabalhos, os caminhos, o coração e (por que não?) o útero, peço licença às madames listadas acima. Que elas me abençoem e me ajudem a transformar a neurose minha de cada dia em textos... divertidos, digamos. É que viver e ser mulher está me deixando louca e loucura é sempre uma boa motivação pra escrever. Então fica combinado assim: 'farejando o mundo que é comível'¹, vou vivendo, sendo mulher, ficando louca, escrevendo e vendo no que dá.
Entre ludicidade e acidez, vou me (des)equilibrando, tentando não chorar e passar por esses tempos difíceis às gargalhadas, que é mais elegante e não dá rugas.
Em outras palavras:
Vou deitar e rolar!
¹De Clarice Lispector em "Uma Esperança".
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