domingo, 20 de novembro de 2011
Raciocínio raso.
Acordou já pensando na escassez de algumas coisas e no acúmulo de outras e em como é difícil enxergar a vida como um ciclo embora ela não se apresente de outra forma. Esboçou um "tsc"- era só um resmungo, mesmo assim se censurou: sabia que não tinha propriamente motivos pra reclamar, ou melhor, os tinha, mas os motivos não vinham do excesso e sim da falta, o que os tornava difíceis de serem mensurados. Correu os olhos pelo armário da cozinha e, percebendo o que faltava, tentou organizar na cabeça uma lista de compras (como se houvesse, se coubesse uma folha em branco na cabeça!), parou no pó de café, o segundo ou terceiro ítem de uma lista que, seguindo adiante, não teria fim. Falando em café, passou um não muito forte e adoçou demais, riu imaginando como seu pai reprovaria balançando devagar a cabeça e rindo pelo canto da boca. - Acho que é o Milan Kundera que diz que a gente se classifica pelos olhares que acredita ter, pela platéia que constrói: há quem precise do grande público, há quem precise se manter sendo o centro das atenções de um grupo de amigos que ri das piadas de sempre e... sabe quando a gente se comporta diferente sob o olhar de alguém? Parece que algumas pessoas têm a capacidade de se comportar diferente só por imaginar que estão sob o olhar de alguém especial. Pois calha que a nossa personagem acredita ser uma dessas pessoas. E é. - Pensou então no pai e no jeitão de reprovar a quantidade de açúcar no café e riu novamente tentando saber se seria muito ridículo lançar mão da máxima "De amarga já basta a vida!". E seria. A partir desse fio da meada, foi aos quilômetros todos que os separavam, o pai e ela, e pensando nisso, olhou pela janela e a expressão que o sol a obrigava a fazer era exatamente igual a que o sol o obrigava a fazer. Sorriu - estavam juntos de novo. Lembrou das... enfim, lembrou. Sem a concentração necessária pra rezar, resta cantar e lembrar que são formas bem legítimas de oração... lembrar é um pouco estabelecer ligações sagradas entre as coisas e entre a gente. Seu homem também diz isso, só que com outras palavras, seu homem é um homem de palavras, as usa muito bem, não é o único homem que lhe povoa o peito (ora, faz calor no Rio de Janeiro) mas é o que melhor usa as palavras e por conta da sua paixão por palavras é o homem que gosta de chamar de seu - secretamente porque parece que não é mais permitido tomar posse de alguém, esse alguém pode zangar-se e ir embora, ainda que seja só maneira de dizer, ainda que seja só maneira de fechar os olhos e de não se sentir só. Daí considerou o peso de ter alguém pra si e não poder comunicar a ninguém, o peso de guardar essa e outras sensações cálidas, então se convenceu de que há certas bagagens que devem ser carregadas até que se dissolvam apesar da dor nos calos e que dor nos calos não se divide mesmo e que há providências que não se toma e que há vontades que não morrem e que há desejos que não se cumprem e que não é a gente que resolve e que há muito a aprender e que tudo que se tem a aprender se relaciona com entender que existe algo maior que ignora nossas pretensas necessidades e que... é, é preciso entender que há fomes que não se mata e que quase tudo termina em reticências.
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