quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A ferro e fogo.

Quando você me vê passar, não me vê sozinha. Vê também certas bandeiras tremulando, vê muitas mulheres suadas e alguns homens de cenho franzido, vê palavras e tecidos coloridos, vê ensinamentos de muitos berços, vê punhos erguidos e olhos marejados, lê frases célebres e de botequim, vê flores e pães, ouve brados, ouve choros, ouve gargalhadas e vozes metálicas de boneca, sente santos fortes, vê o peso de muitas gerações penduradas no meu pescoço.
Sabe o que é, meu caro? É que eu faço questão de ostentar, no corpo, meus caminhos e o que colhi neles, como prova definitiva dos amores - meus amores são todos eternos e, embora eu não os viva sempre e muito menos pra sempre, uma vez que estiveram em mim, me acompanharão até o túmulo. Amores e o que mais existir sob a forma de afeto. Tudo o que me atravessa, me modifica, me deforma, me deflora, me rasga. Carrego. Só ando farta de lembranças que não me abandonam, só caminho coberta por insignias de guerra.
Então não venha me pedir pra ser leve. Se pareço leve, se consigo saltitar com os cabelos desgrenhados é porque há, no meio da bugiganga de mim, uma menina de pernas finas e alegrar pouco exigente, há um bicho puramente selvagem que transita livremente entre as memórias e que me permite dançar sem preocupação, mas não se engane, não sou leve. O que me acompanha são marcas das batalhas que ganhei e, especialmente, das que perdi. Trago comigo o que me dói e o que hei de doar.
Se me olhar com atenção vai perceber que na minha pele aparentemente nua e intacta há muito mais que tatuagens e cicatrizes, há profundas chagas e úlceras permanentes. Se fechar os olhos vai poder ouvir o chacoalhar das medalhas e o tilintar das espadas, vai sentir o cheiro velho dos anos. Vai entender que essa e outras vidas choveram e que eu estive permeável. Vai notar que eu trago no peito baús insondáveis, grandes e minúsculos, alguns empoeirados, outros constantemente polidos, mas todos com algum pedaço de reino perdido que eu encontrei por aí - os reis, trago na barriga, é claro.
Se você tiver ouvidos pra ouvir, vai saber que, do meu jeito, eu saquei que esse mundo é um mergulho e que eu tomei por missão levar pra superfície o que eu conseguir pescar aqui embaixo. Exploro. Nasci e, por onde quer que eu passe, até a morte, vou roubar rosas e me ferir nos espinhos e vou manter, então, em mim, o arranhão e a rosa, num contínuo acumular de tralhas forjadoras. É como o manto que Artur Bispo do Rosário bordou com as coisas que ele gostava desse mundo pra mostrar a Deus, quando encontrasse com Ele, o que valia a pena carregar daqui.
Ai, não me peça pra ser leve, porque um pano encharcado não pode ser leve, diacho! Não me peça pra ser leve, porque eu escolhi abraçar causas que pesam. Não me peça pra ser leve, que é da minha natureza equilibrar bacias de roupa na cabeça em nome das minhas ancestrais lavadeiras. Não me peça pra ser leve porque essa é a minha maneira de fincar os pés na terra e de nadar contra a correnteza, de resistir. Não peça, não. Ao invés disso, pese a tua própria carne contra a minha e me dê motivos incontestáveis pra guardar a tua voz num baú e tatuar o teu nome n'alma. Seja você rei das minhas entranhas e me dê razões suficientes pr'eu te costurar no meu manto.