Nossa, como eu exagero! Como eu faço drama! Imaginem vocês que fico mal humorada toda vez que leio alguma notícia relacionada aos bueiros que estão explodindo como gêiseres por toda cidade, matando e machucando gente, enquanto pagamos impostos e taxas cada vez mais altos que deveriam ser destinados ao bem estar público. E que eu sinto um medo quase paralisante quando preciso passar por determinadas ruas só porque tive um revólver apontado pra mim dia desses. É cada bobagem que me afeta... eu deveria procurar ajuda profissional. Fico pra morrer quando as pessoas jogam lixo no chão com toda naturalidade do mundo e tratam o que é de todo mundo como se fosse de ninguém, bem como quando elas ouvem música no celular sem fone de ouvido no ônibus. Acreditam que eu chego a sentir palpitações quando percebo que as pessoas continuam consumindo sacolas plásticas como se não houvesse amanhã (e não haverá mesmo) e que as indústrias continuam produzindo a todo vapor sem se preocupar com os recursos naturais do planeta e com a saúde de quem o habita? Eu sou, de fato, muito cricri e rabugenta com essa besteira de meio ambiente. Agora, patológicas mesmo são as minhas neuroses femininas. Chego ao cúmulo de considerar uma condenação divina essa históia de menstruar... só sendo uma fraca como eu pra me incomodar com o fato de ter de andar com uma espécie de frauda por sete dias todo mês enquanto minhas pernas e ventre doem e incho feito um bonecão do posto. E depilar então... um detalhe que me faz gastar uma fortuna pra sentir uma dor infernal na virilha, só uma mulher mal resolvida como eu pra reclamar disso. Sem mencionar toda a preocupação de resolver a carreira e vida financeira antes do prazo de validade do útero acabar, se é que eu tenho o direito de botar um filho nesse mundo poluído que é de ninguém. Achar um pai seria um problema à parte (pr'uma criatura pessimista como eu) porque, realmente, não sei em que pé estão as relações amorosas do nosso tempo, o que posso afirmar é que os homens aparentemente vêm desenvolvendo um problema gravíssimo de memória que faz com que eles se esqueçam de te ligar, por exemplo. Claro que a esperança de receber um telefonema é parte da minha esquizofrenia, coisa da minha cabeça, que acredita que alguém vai ligar só porque esse alguém diz com todas as letras que vai ligar e que vai ligar porque me acha linda, importante e especial. Com o sumiço dos machos da minha espécie, me vejo pensando em alternativas pra conceber um bebê e confesso que não simpatizo com os métodos de laboratório, a idéia de ter filho com um copo de vidro não me agrada nem um pouco.
Enfim, a questão toda é que todas essas questões são uma coisinha de nada e a gente tem a obrigação de ser feliz e aquietar o espírito como nas novelas ou comeciais de absorventes. Eu é que sou muito feroz e não vejo (só) a delicadeza, a doçura e a leveza de viver, eu é que 'queria a natureza mais doce'¹ por considerar corpo e alma humanos tão violentos. Eu é que deveria sossegar e esquecer que eu faço parte disso tudo. Eu deveria me angustiar menos e fingir que não noto que as pessoas são tão cruéis e que viver causa câncer.
¹De Grace Passô em "Por Elise".
Menina, o mundo é áspero e os caras, estranhos. É por isso que resolvi desde cedo chutar o balde e ser maluca mesmo.
ResponderExcluirP.S.: Eu queria encontrar palavras pra te confortar, mas a verdade é que não há conforto nenhum nessa história toda. A solução deve ser surtar mesmo... E eu que o diga.
Não venho em busca de conforto, fico feliz com o apoio e encorajamento pra surtar.
ResponderExcluirPois é, viver as vezes dói. Não há como negar o vazio de existir né? Somos pensantes, isso que é a chave de tudo, o inferno e os céus, ao mesmo tempo. Ou lançamos-nos na eterna busca, ou nos resta enlouquecer realmente (aliás, vários artistas já fizeram isso antes).
ResponderExcluirBom, continuo preferindo a primeira opção. Me parece mais desafiadora e digna. ;)