Quando você me vê passar, não me vê sozinha. Vê também certas bandeiras tremulando, vê muitas mulheres suadas e alguns homens de cenho franzido, vê palavras e tecidos coloridos, vê ensinamentos de muitos berços, vê punhos erguidos e olhos marejados, lê frases célebres e de botequim, vê flores e pães, ouve brados, ouve choros, ouve gargalhadas e vozes metálicas de boneca, sente santos fortes, vê o peso de muitas gerações penduradas no meu pescoço.
Sabe o que é, meu caro? É que eu faço questão de ostentar, no corpo, meus caminhos e o que colhi neles, como prova definitiva dos amores - meus amores são todos eternos e, embora eu não os viva sempre e muito menos pra sempre, uma vez que estiveram em mim, me acompanharão até o túmulo. Amores e o que mais existir sob a forma de afeto. Tudo o que me atravessa, me modifica, me deforma, me deflora, me rasga. Carrego. Só ando farta de lembranças que não me abandonam, só caminho coberta por insignias de guerra.
Então não venha me pedir pra ser leve. Se pareço leve, se consigo saltitar com os cabelos desgrenhados é porque há, no meio da bugiganga de mim, uma menina de pernas finas e alegrar pouco exigente, há um bicho puramente selvagem que transita livremente entre as memórias e que me permite dançar sem preocupação, mas não se engane, não sou leve. O que me acompanha são marcas das batalhas que ganhei e, especialmente, das que perdi. Trago comigo o que me dói e o que hei de doar.
Se me olhar com atenção vai perceber que na minha pele aparentemente nua e intacta há muito mais que tatuagens e cicatrizes, há profundas chagas e úlceras permanentes. Se fechar os olhos vai poder ouvir o chacoalhar das medalhas e o tilintar das espadas, vai sentir o cheiro velho dos anos. Vai entender que essa e outras vidas choveram e que eu estive permeável. Vai notar que eu trago no peito baús insondáveis, grandes e minúsculos, alguns empoeirados, outros constantemente polidos, mas todos com algum pedaço de reino perdido que eu encontrei por aí - os reis, trago na barriga, é claro.
Se você tiver ouvidos pra ouvir, vai saber que, do meu jeito, eu saquei que esse mundo é um mergulho e que eu tomei por missão levar pra superfície o que eu conseguir pescar aqui embaixo. Exploro. Nasci e, por onde quer que eu passe, até a morte, vou roubar rosas e me ferir nos espinhos e vou manter, então, em mim, o arranhão e a rosa, num contínuo acumular de tralhas forjadoras. É como o manto que Artur Bispo do Rosário bordou com as coisas que ele gostava desse mundo pra mostrar a Deus, quando encontrasse com Ele, o que valia a pena carregar daqui.
Ai, não me peça pra ser leve, porque um pano encharcado não pode ser leve, diacho! Não me peça pra ser leve, porque eu escolhi abraçar causas que pesam. Não me peça pra ser leve, que é da minha natureza equilibrar bacias de roupa na cabeça em nome das minhas ancestrais lavadeiras. Não me peça pra ser leve porque essa é a minha maneira de fincar os pés na terra e de nadar contra a correnteza, de resistir. Não peça, não. Ao invés disso, pese a tua própria carne contra a minha e me dê motivos incontestáveis pra guardar a tua voz num baú e tatuar o teu nome n'alma. Seja você rei das minhas entranhas e me dê razões suficientes pr'eu te costurar no meu manto.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Paixão de antes.
Mas hoje antes de morrer eu quero as suas mãos enterradas nas minhas costelas e sua língua cravada no meu pescoço que assim eu morro mais bonita.
Se o amanhã está longe e o hoje é de concreto já começo a perder a sutileza.
Se desde o dia 8 de qualquer mês eu não te vejo já penso em violentar o seu rosto.
No hoje eu não quero morrer sozinha. Eu tenho medo.
O sujeito tem que ter muita saúde pra se suportar sozinho. E sabemos que saúde não é um bem durável. O ser humano está condicionado à codependência pra se sentir inteiro. Que bobagem, no fim das contas, eu só estou apaixonada.
Então hoje eu caminho, cozinho, molho as plantas, amo, amo com hora marcada porque eu sou uma mulher prática.
Sabe do que mais? Quando você diz meu nome eu sinto renascer, sinto pulsar.
Diante de você eu sou um unicórnio, um índio. Pelado. Inocente. Sou Teresa de Kundera.
Vou entender o seu silêncio como um longo respirar e recuo antes de mergulhar em mim. E quando nos encontrarmos, a fusão será tal que nenhum de nós dois sairá inteiro.
Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho?
Aliás, é primavera e uma bondade perigosa está no ar.
Considere a cruel necessidade de amar, considere a malignidade do nosso desejo de ser feliz. Considere a ferocidade com que queremos brincar e o número de vezes em que mataremos por amor.
*Essa paixão foi mesmo confusa.
*Essa paixão morreu antes de eu conseguir concluir o texto.
*Essa paixão me fez tão burra que escrevi essas e outras linhas pra um homem que nem sabia ler.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Mão da mãe.
- A coisa rasga, não há quem negue.
O troço corrói, não inventaram o que segure.
Retalha a gente até que se sucumba feio.
E prevalece, prevalece que eu sei.
- Sabe de uma coisa, minha criança, infla esse peito e engole o susto que eu não quero ver você chorar.
Guarda o medo embaixo das asas que ele vai te forjando por dentro até que por fora seja tudo mar calmo.
Agora, ouve: vê se tu não oferece mais teus cabelos pra nêgo se agarrar enquanto se afoga.
Vê se deixa inchar, se deixa doer as dores que têm que doer na carne de cada um.
Olha bem e mantém o sorriso sereno de quem já se mordeu até arrancar pedaço. Aprende.
- E quando vier na goela a vontade de ferir, de rasgar de volta, faço o quê?
- Ergue a tua faca e corta um pedaço de bolo feito do teu suor que eu não te criei pra machucar ninguém.
Não toca nele não, não afunda a zunha na costela dele não, que da costela dele não se faz nada.
Nem mulher traíra.
Faz miséria de si, faz poeira e ri, ri sim que o que é teu tá pra nascer e de repente nasce mesmo do pó.
Tem coisa pra vir do pó da tua pele, menina desassossegada.
Coça que vem, criatura inquieta.
Fareja o resto do mundo que tem mais mundo chegando.
Fuça nos cantos, cisca nos terreiros grandes, colhe os temperos certos e não se afoba.
Não se afoba não que é nas mãos de Nossa Senhora do Carmo e da minha Santa Rita que eu te entrego todo dia.
Pra Priscila Danny, Maria Arêas, suas respectivas mães e pra Minha Senhora Dona Zuleica, é claro.
O troço corrói, não inventaram o que segure.
Retalha a gente até que se sucumba feio.
E prevalece, prevalece que eu sei.
- Sabe de uma coisa, minha criança, infla esse peito e engole o susto que eu não quero ver você chorar.
Guarda o medo embaixo das asas que ele vai te forjando por dentro até que por fora seja tudo mar calmo.
Agora, ouve: vê se tu não oferece mais teus cabelos pra nêgo se agarrar enquanto se afoga.
Vê se deixa inchar, se deixa doer as dores que têm que doer na carne de cada um.
Olha bem e mantém o sorriso sereno de quem já se mordeu até arrancar pedaço. Aprende.
- E quando vier na goela a vontade de ferir, de rasgar de volta, faço o quê?
- Ergue a tua faca e corta um pedaço de bolo feito do teu suor que eu não te criei pra machucar ninguém.
Não toca nele não, não afunda a zunha na costela dele não, que da costela dele não se faz nada.
Nem mulher traíra.
Faz miséria de si, faz poeira e ri, ri sim que o que é teu tá pra nascer e de repente nasce mesmo do pó.
Tem coisa pra vir do pó da tua pele, menina desassossegada.
Coça que vem, criatura inquieta.
Fareja o resto do mundo que tem mais mundo chegando.
Fuça nos cantos, cisca nos terreiros grandes, colhe os temperos certos e não se afoba.
Não se afoba não que é nas mãos de Nossa Senhora do Carmo e da minha Santa Rita que eu te entrego todo dia.
Pra Priscila Danny, Maria Arêas, suas respectivas mães e pra Minha Senhora Dona Zuleica, é claro.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
termos gramaticais
Dor é substantivo feminino.
Medo é substantivo masculino.
E de verbo(rragia) sei o seguinte:
Eu senti
Ele pressentiu
Eu ressenti
Reticências
Amargura e melancolia são duas das palavras mais bonitas da minha língua. (Só é preciso tomar cuidado com o estrago que fazem no estômago.)
Em bom português:
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Paixões de carnaval.
É fim de fevereiro, um inegável ar diferente nas ruas, os últimos deliciosos dias do horário de verão, um formato quase que pasteurizado de alegria no coração e nos olhos do povo, todo mundo meio apertado de grana (que se dane: os blocos são de graça, me convenço), um calar nervoso das preocupações, um deixar pra pensar depois porque logo em seguida o ano começa efetivamente - e seja o que Deus quiser! Uma atmosfera tão confusa quanto sedutora, tão sinuosa que chega a encantar, a receita não se completa sem doses cavalares de suor e cerveja e a gente vai se embalando ao som de sambas imortais e de marchinhas ancestrais, de funk e de batidas meio fora do tom que surgem não sei donde, a gente vai é se balançando de qualquer jeito ao menor sinal de ruído, a gente vai seguindo quase sem precisar tocar os pés no chão de paralelepípedos arrepiados da velha cidade, sendo carregada pela multidão bem humorada que se move lenta, furiosa e que gloriosamente vai dar em lugar nenhum: dispersão e fim de papo! Essa desobrigação de objetivos é mágica, convenhamos.
Não sei se tenho, por origem, o direito de me dizer apaixonada por carnaval, o fato é que sou. Eu, meio da roça, boêmia, isso sim, de criação, me ajeito como posso em tempos de folia, corto um dobrado pra conseguir acompanhar o ritmo frenético desde cedo, babo na beleza das coisas (que no fim das contas é o que salvará o mundo), fico admirada da desordem que tem tudo pra dar errado e não dá, rio feito boba dos irreverentes de ocasião, me arrepio inteira quando o bicho pega na bateria e, vira e mexe, desando a chorar num verso de samba. O que eu posso dizer... eu me jogo - e seja o que Deus quiser mais uma vez.
Bom, se cortar um dobrado, babar, se admirar, rir, se arrepiar, chorar, se jogar e entregar pra Deus não é ser apaixonado então não sei mais o que é.
Fico assim pensando nas minhas paixões e em como e pra onde elas me carregam.
Ontem, num bar (onde mais), entramos num papo perigoso sobre escolhas vs necessidades e teve espaço pro "por que você escolheu fazer teatro?". Acho que faço teatro pelo mesmo motivo pelo qual compro sapatos: porque me cabem e porque tenho muito tesão neles. Não escolhi ter pés número 37, no entanto, tenho, incontestavelmente e sinto um prazer que não poderia descrever quando eles se casam com um lindo par de sapatos, vejam só, número 37. Não escolhi ter alma de atriz e no entanto, tenho, irremediavelmente. Minh'alma é do tamanho do palco e só eu sei, se é que sei, o que sinto quando eles se fundem. Indo por esse caminho, não sei se escolhi fazer teatro, sinto esse não-sei-o-quê desde que tenho memória, paixão é um troço que vem no bebê, como o signo. O que eu escolhi, e não posso negar, foi viver de, com e por paixões, é disso que não abro mão. Claro que 'viver de' exige uma manha que confesso ainda não ter, mas isso é o tal 'cortar um dobrado' e um pouco do 'entregar pra Deus', é ter fé de que caminhando eu vou aprender a desenhar moldes de encaixe perfeito pra todas as minhas medidas e entender do riscado, do babado. O resto é comunicar aos sentidos dos outros e se desobrigar dos objetivos porque essa mágica ultrapassa qualquer entendimento. O resto é a coragem de saber que ninguém segura uma marcha lenta, furiosa e bem humorada em direção ao nada. O resto são sonhos, lembranças e palpites, todos bem guardados numa caixa de sapatos número 37.
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