Não sei se tenho, por origem, o direito de me dizer apaixonada por carnaval, o fato é que sou. Eu, meio da roça, boêmia, isso sim, de criação, me ajeito como posso em tempos de folia, corto um dobrado pra conseguir acompanhar o ritmo frenético desde cedo, babo na beleza das coisas (que no fim das contas é o que salvará o mundo), fico admirada da desordem que tem tudo pra dar errado e não dá, rio feito boba dos irreverentes de ocasião, me arrepio inteira quando o bicho pega na bateria e, vira e mexe, desando a chorar num verso de samba. O que eu posso dizer... eu me jogo - e seja o que Deus quiser mais uma vez.
Bom, se cortar um dobrado, babar, se admirar, rir, se arrepiar, chorar, se jogar e entregar pra Deus não é ser apaixonado então não sei mais o que é.
Fico assim pensando nas minhas paixões e em como e pra onde elas me carregam.
Ontem, num bar (onde mais), entramos num papo perigoso sobre escolhas vs necessidades e teve espaço pro "por que você escolheu fazer teatro?". Acho que faço teatro pelo mesmo motivo pelo qual compro sapatos: porque me cabem e porque tenho muito tesão neles. Não escolhi ter pés número 37, no entanto, tenho, incontestavelmente e sinto um prazer que não poderia descrever quando eles se casam com um lindo par de sapatos, vejam só, número 37. Não escolhi ter alma de atriz e no entanto, tenho, irremediavelmente. Minh'alma é do tamanho do palco e só eu sei, se é que sei, o que sinto quando eles se fundem. Indo por esse caminho, não sei se escolhi fazer teatro, sinto esse não-sei-o-quê desde que tenho memória, paixão é um troço que vem no bebê, como o signo. O que eu escolhi, e não posso negar, foi viver de, com e por paixões, é disso que não abro mão. Claro que 'viver de' exige uma manha que confesso ainda não ter, mas isso é o tal 'cortar um dobrado' e um pouco do 'entregar pra Deus', é ter fé de que caminhando eu vou aprender a desenhar moldes de encaixe perfeito pra todas as minhas medidas e entender do riscado, do babado. O resto é comunicar aos sentidos dos outros e se desobrigar dos objetivos porque essa mágica ultrapassa qualquer entendimento. O resto é a coragem de saber que ninguém segura uma marcha lenta, furiosa e bem humorada em direção ao nada. O resto são sonhos, lembranças e palpites, todos bem guardados numa caixa de sapatos número 37.
Se te solta o beco infinito das ruas sem trago, desperta pro que lhe é cinema. Imagem ação. Imagem ação, relação. Alguns diversificados dilemas. As unhas de Deus costumam coçar nossas costas mas não resolvem problemas, porque é no amor, com o qual isso tudo é levado pelos olhos, que nos direcionamos. Velas absurdas de um barco nativo no meio do peito. O navio vai e volta ao tocar da voz grave de um samba eleito pela melodia, que na cadência, acalma nossas euforias indisciplinadas. Podia te jurar que isso tudo não nos serve de nada, mas é que a paixão arrepia, arrasta e nos cabe tão perfeitamente! A tela e as cores são tão de verdade! Mais que no cinema! Mais que nos sonhos! Que chego a acreditar que o melhor mesmo é pular nas costas das nossas vontades e disparar jogando beijos pela avenida das questões da humanas.
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