quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Paixões de carnaval.

É fim de fevereiro, um inegável ar diferente nas ruas, os últimos deliciosos dias do horário de verão, um formato quase que pasteurizado de alegria no coração e nos olhos do povo, todo mundo meio apertado de grana (que se dane: os blocos são de graça, me convenço), um calar nervoso das preocupações, um deixar pra pensar depois porque logo em seguida o ano começa efetivamente - e seja o que Deus quiser! Uma atmosfera tão confusa quanto sedutora, tão sinuosa que chega a encantar, a receita não se completa sem doses cavalares de suor e cerveja e a gente vai se embalando ao som de sambas imortais e de marchinhas ancestrais, de funk e de batidas meio fora do tom que surgem não sei donde, a gente vai é se balançando de qualquer jeito ao menor sinal de ruído, a gente vai seguindo quase sem precisar tocar os pés no chão de paralelepípedos arrepiados da velha cidade, sendo carregada pela multidão bem humorada que se move lenta, furiosa e que gloriosamente vai dar em lugar nenhum: dispersão e fim de papo! Essa desobrigação de objetivos é mágica, convenhamos.
Não sei se tenho, por origem, o direito de me dizer apaixonada por carnaval, o fato é que sou. Eu, meio da roça, boêmia, isso sim, de criação, me ajeito como posso em tempos de folia, corto um dobrado pra conseguir acompanhar o ritmo frenético desde cedo, babo na beleza das coisas (que no fim das contas é o que salvará o mundo), fico admirada da desordem que tem tudo pra dar errado e não dá, rio feito boba dos irreverentes de ocasião, me arrepio inteira quando o bicho pega na bateria e, vira e mexe, desando a chorar num verso de samba. O que eu posso dizer... eu me jogo - e seja o que Deus quiser mais uma vez.
Bom, se cortar um dobrado, babar, se admirar, rir, se arrepiar, chorar, se jogar e entregar pra Deus não é ser apaixonado então não sei mais o que é.
Fico assim pensando nas minhas paixões e em como e pra onde elas me carregam.
Ontem, num bar (onde mais), entramos num papo perigoso sobre escolhas vs necessidades e teve espaço pro "por que você escolheu fazer teatro?". Acho que faço teatro pelo mesmo motivo pelo qual compro sapatos: porque me cabem e porque tenho muito tesão neles. Não escolhi ter pés número 37, no entanto, tenho, incontestavelmente e sinto um prazer que não poderia descrever quando eles se casam com um lindo par de sapatos, vejam só, número 37. Não escolhi ter alma de atriz e no entanto, tenho, irremediavelmente. Minh'alma é do tamanho do palco e só eu sei, se é que sei, o que sinto quando eles se fundem. Indo por esse caminho, não sei se escolhi fazer teatro, sinto esse não-sei-o-quê desde que tenho memória, paixão é um troço que vem no bebê, como o signo. O que eu escolhi, e não posso negar, foi viver de, com e por paixões, é disso que não abro mão. Claro que 'viver de' exige uma manha que confesso ainda não ter, mas isso é o tal 'cortar um dobrado' e um pouco do 'entregar pra Deus', é ter fé de que caminhando eu vou aprender a desenhar moldes de encaixe perfeito pra todas as minhas medidas e entender do riscado, do babado. O resto é comunicar aos sentidos dos outros e se desobrigar dos objetivos porque essa mágica ultrapassa qualquer entendimento. O resto é a coragem de saber que ninguém segura uma marcha lenta, furiosa e bem humorada em direção ao nada. O resto são sonhos, lembranças e palpites, todos bem guardados numa caixa de sapatos número 37.