sexta-feira, 6 de abril de 2012

termos gramaticais

Dor é substantivo feminino.
Medo é substantivo masculino.
E de verbo(rragia) sei o seguinte:
Eu senti
Ele pressentiu
Eu ressenti
Reticências

Amargura e melancolia são duas das palavras mais bonitas da minha língua. (Só é preciso tomar cuidado com o estrago que fazem no estômago.)

Em bom português:

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Paixões de carnaval.

É fim de fevereiro, um inegável ar diferente nas ruas, os últimos deliciosos dias do horário de verão, um formato quase que pasteurizado de alegria no coração e nos olhos do povo, todo mundo meio apertado de grana (que se dane: os blocos são de graça, me convenço), um calar nervoso das preocupações, um deixar pra pensar depois porque logo em seguida o ano começa efetivamente - e seja o que Deus quiser! Uma atmosfera tão confusa quanto sedutora, tão sinuosa que chega a encantar, a receita não se completa sem doses cavalares de suor e cerveja e a gente vai se embalando ao som de sambas imortais e de marchinhas ancestrais, de funk e de batidas meio fora do tom que surgem não sei donde, a gente vai é se balançando de qualquer jeito ao menor sinal de ruído, a gente vai seguindo quase sem precisar tocar os pés no chão de paralelepípedos arrepiados da velha cidade, sendo carregada pela multidão bem humorada que se move lenta, furiosa e que gloriosamente vai dar em lugar nenhum: dispersão e fim de papo! Essa desobrigação de objetivos é mágica, convenhamos.
Não sei se tenho, por origem, o direito de me dizer apaixonada por carnaval, o fato é que sou. Eu, meio da roça, boêmia, isso sim, de criação, me ajeito como posso em tempos de folia, corto um dobrado pra conseguir acompanhar o ritmo frenético desde cedo, babo na beleza das coisas (que no fim das contas é o que salvará o mundo), fico admirada da desordem que tem tudo pra dar errado e não dá, rio feito boba dos irreverentes de ocasião, me arrepio inteira quando o bicho pega na bateria e, vira e mexe, desando a chorar num verso de samba. O que eu posso dizer... eu me jogo - e seja o que Deus quiser mais uma vez.
Bom, se cortar um dobrado, babar, se admirar, rir, se arrepiar, chorar, se jogar e entregar pra Deus não é ser apaixonado então não sei mais o que é.
Fico assim pensando nas minhas paixões e em como e pra onde elas me carregam.
Ontem, num bar (onde mais), entramos num papo perigoso sobre escolhas vs necessidades e teve espaço pro "por que você escolheu fazer teatro?". Acho que faço teatro pelo mesmo motivo pelo qual compro sapatos: porque me cabem e porque tenho muito tesão neles. Não escolhi ter pés número 37, no entanto, tenho, incontestavelmente e sinto um prazer que não poderia descrever quando eles se casam com um lindo par de sapatos, vejam só, número 37. Não escolhi ter alma de atriz e no entanto, tenho, irremediavelmente. Minh'alma é do tamanho do palco e só eu sei, se é que sei, o que sinto quando eles se fundem. Indo por esse caminho, não sei se escolhi fazer teatro, sinto esse não-sei-o-quê desde que tenho memória, paixão é um troço que vem no bebê, como o signo. O que eu escolhi, e não posso negar, foi viver de, com e por paixões, é disso que não abro mão. Claro que 'viver de' exige uma manha que confesso ainda não ter, mas isso é o tal 'cortar um dobrado' e um pouco do 'entregar pra Deus', é ter fé de que caminhando eu vou aprender a desenhar moldes de encaixe perfeito pra todas as minhas medidas e entender do riscado, do babado. O resto é comunicar aos sentidos dos outros e se desobrigar dos objetivos porque essa mágica ultrapassa qualquer entendimento. O resto é a coragem de saber que ninguém segura uma marcha lenta, furiosa e bem humorada em direção ao nada. O resto são sonhos, lembranças e palpites, todos bem guardados numa caixa de sapatos número 37.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Meu pai tem razão. Viver não é força, é jeito.

E o jeito é caminhar com a mão no bolso até um simpático boteco de calçada pra aproveitar o fim de tarde e seguir noite adentro tomando uma boa cerveja gelada, rindo das pataquadas cotidianas e pedindo ao garçom uma caneta pra anotar num guardanapo uma ou outra idéia que deverá ser desenvolvida depois (e não será). Respirar devagar enquanto o céu se alaranja e, com certo ar teatral, lançar mão de uma dessas frases que o vento vem às vezes me lembrar. Segurar quando os óio enche d'água porque nesse momento o coração já tá aberto e tem sempre alguém pra lembrar de alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho. Migrar pra outro boteco atrás dAquele aipim frito. Reparar que ficou tarde e xingar porque amanhã tem um troço (relativamente) chato pra fazer (relativamente) cedo. Pagar a conta com o que se conseguiu num bico que se conseguiu de última hora na útima semana. Voltar pra casa cantando baixinho e rindo discretamente, que é uma maneira de agradecer a Deus pelos momentos de comunhão e pelas lições aprendidas. Por fim, pensar em quem não esteve e torcer pra que o álcool tenha sido suficiente pra fazer dormir logo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Raciocínio raso.

Acordou já pensando na escassez de algumas coisas e no acúmulo de outras e em como é difícil enxergar a vida como um ciclo embora ela não se apresente de outra forma. Esboçou um "tsc"- era só um resmungo, mesmo assim se censurou: sabia que não tinha propriamente motivos pra reclamar, ou melhor, os tinha, mas os motivos não vinham do excesso e sim da falta, o que os tornava difíceis de serem mensurados. Correu os olhos pelo armário da cozinha e, percebendo o que faltava, tentou organizar na cabeça uma lista de compras (como se houvesse, se coubesse uma folha em branco na cabeça!), parou no pó de café, o segundo ou terceiro ítem de uma lista que, seguindo adiante, não teria fim. Falando em café, passou um não muito forte e adoçou demais, riu imaginando como seu pai reprovaria balançando devagar a cabeça e rindo pelo canto da boca. - Acho que é o Milan Kundera que diz que a gente se classifica pelos olhares que acredita ter, pela platéia que constrói: há quem precise do grande público, há quem precise se manter sendo o centro das atenções de um grupo de amigos que ri das piadas de sempre e... sabe quando a gente se comporta diferente sob o olhar de alguém? Parece que algumas pessoas têm a capacidade de se comportar diferente só por imaginar que estão sob o olhar de alguém especial. Pois calha que a nossa personagem acredita ser uma dessas pessoas. E é. - Pensou então no pai e no jeitão de reprovar a quantidade de açúcar no café e riu novamente tentando saber se seria muito ridículo lançar mão da máxima "De amarga já basta a vida!". E seria. A partir desse fio da meada, foi aos quilômetros todos que os separavam, o pai e ela, e pensando nisso, olhou pela janela e a expressão que o sol a obrigava a fazer era exatamente igual a que o sol o obrigava a fazer. Sorriu - estavam juntos de novo. Lembrou das... enfim, lembrou. Sem a concentração necessária pra rezar, resta cantar e lembrar que são formas bem legítimas de oração... lembrar é um pouco estabelecer ligações sagradas entre as coisas e entre a gente. Seu homem também diz isso, só que com outras palavras, seu homem é um homem de palavras, as usa muito bem, não é o único homem que lhe povoa o peito (ora, faz calor no Rio de Janeiro) mas é o que melhor usa as palavras e por conta da sua paixão por palavras é o homem que gosta de chamar de seu - secretamente porque parece que não é mais permitido tomar posse de alguém, esse alguém pode zangar-se e ir embora, ainda que seja só maneira de dizer, ainda que seja só maneira de fechar os olhos e de não se sentir só. Daí considerou o peso de ter alguém pra si e não poder comunicar a ninguém, o peso de guardar essa e outras sensações cálidas, então se convenceu de que há certas bagagens que devem ser carregadas até que se dissolvam apesar da dor nos calos e que dor nos calos não se divide mesmo e que há providências que não se toma e que há vontades que não morrem e que há desejos que não se cumprem e que não é a gente que resolve e que há muito a aprender e que tudo que se tem a aprender se relaciona com entender que existe algo maior que ignora nossas pretensas necessidades e que... é, é preciso entender que há fomes que não se mata e que quase tudo termina em reticências.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Setembro.

Pra agora e pra daqui por diante, três atividades, porque se me prometer mais não cumpro, me conheço. Andar de bicicleta, ler e regar as plantas. A vida está se movimentando em larga escala e alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho¹. Minha pretensão, no entanto, é enorme com essa meta de realizar o simples. Quero respirar em mim (que é o jeito que inventei pra falar disso), quero apagar as manchas que me borram, soprar pra longe essa névoa que me envolve enquanto os dias correm hostis, preocupados e meio embriagados. É como se eu quisesse ficar só com que é essência. É árdua a busca pelo que é delicado nessa humanidade que construiu sua história com sangue e que grita tão forte dentro de mim e da minha arrogância, ou seja, é árdua a busca pelo que há de delicado em mim. Mas vamos que vamos porque somos fortes como um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar². E quando eu digo 'somos' é porque posso contar com um time e tanto, gente que me olha nos olhos e que consegue sentir compaixão por mim, gente que me conhece e mesmo assim consegue me amar. Li uma vez num conto que ternura é dom, o conto não era lá essas coisas mas essa frase nunca mais saiu de mim, e, de fato, ternura é dom.

¹De Dona Ivone Lara em "Alguém me avisou".
²De Grace Passô em "Por Elise".

domingo, 28 de agosto de 2011

Microfone.

Eu sei que a poesia é um grito e, às vezes, um escarro, mas é que hoje eu quero falar baixo.
Porque todas essas coisas que nos causam câncer não podem ouvir.
Porque quem realmente importa já está perto.
E porque a liberdade é uma faca que corta de dentro pra fora e, pra contaminar, basta um abraço.

sábado, 27 de agosto de 2011

Caminhos.

Dia ou noite?
Teatro ou cinema?
Rede ou sofá?
Balada ou boteco?
Coca ou pepsi?
Pizza ou hamburguer?
Piscina ou praia?
Inverno ou verão?
Outono ou primavera?
Orquídea ou girassol?
Bolo ou pão?
Tinto ou branco?
Vermelho ou amarelo?
Azul ou verde?
Chinelo ou tênis?
Ônibus ou metrô?
Beatles ou Stones?
Castanhas ou avelãs?
Torta ou sorvete?
Brownie ou cookie?
Café ou chocolate?
Bala ou chiclete?
Filme em casa ou no cinema?
MAM ou CCBB?
São Paulo ou Rio?
NY ou Paris?
Ferro ou madeira?
Almodóvar ou Tarantino?
Boa música ou silêncio?
Carro ou moto?
Nirvana ou Pearl Jam?
Receber uma ligação ou uma mensagem?
Tigre ou leão?
Mafalda ou Kalvin?
Voz ou cheiro?
Liberdade ou segurança?
...